Educação musical e estudos de gênero
indisciplina e normatividade em aulas de canto coral em um projeto social
Palavras-chave:
educação musical, estudos de gênero, canto coralResumo
Este é um relato de experiência referente à educação musical e estudos de gênero. A partir de aulas de canto coral para crianças e jovens, de 6 a 18 anos, de um projeto social, suscitam-se entendimentos e críticas quanto à indisciplina e normatividade mediante as demandas da voz, vocalidade e corpo, em masculinidade, feminilidade e não binariedade. Recorre-se aqui à observação participante nas relações de ensino-aprendizagem musicais. Analiticamente, situa-se no pós-estruturalismo, expandindo-se diálogos com Judith Butler, Helena Lopes da Silva, Silvia Cordeiro Nassif, Carlos Kater, Patrícia Gherovici, entre outros. Compreende-se que pensar questões de gênero nas relações de ensino-aprendizagem musicais, por sua vez, implica em criticar as normatividades sociocultural e historicamente reiteradas na estruturação generificada do canto coral, por exemplo, quando o canto é considerado majoritariamente feminino. Há ainda a demanda por entendimento da ausência e indisciplina majoritária nos meninos, em acolhimento, ressignificação e redirecionamento, para que seja problematizado o binarismo de gênero e melhorada a noção de pertencimento e inclusão, em trocas, sociabilidade, enfrentamentos e desdobramentos técnicos e estéticos. Sem incorrer em sexismo, a disciplina e voz mais estável, no início da adolescência, podem indicar maiores envolvimentos das meninas, moças e dos homens transgêneros com o canto: salvaguadando-se as demandas da menarca e da mudança da voz. Há a necessidade de acolhimento da mudança vocal mais demorada em corpos masculinos, e os reconhecimentos da intersexualidade e não binariedade para superação do viés dicotômico. Isto requer mediação pedagógica politizada e estetizada, diálogos e contextualizações por uma educação musical pluralista, humanizadora.
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