Quando a música se faz escola
uma cartografia discursiva das disputas curriculares em educação musical
Resumo
Esta comunicação apresenta resultados parciais de uma pesquisa de doutorado que investiga como políticas curriculares se traduzem em ações pedagógicas no campo da educação musical. A partir de uma revisão bibliográfica crítica, foram analisados 14 artigos publicados entre 2004 e 2025 em periódicos indexados na SciELO, à luz de quatro eixos teórico-analíticos: tradução docente, escrita de si e performatividade, políticas curriculares e ontologia do currículo vivido. Ancorada em perspectivas pós-estruturais e nos estudos reconceptualistas do currículo, a pesquisa compreende os textos acadêmicos não apenas como descrições de práticas, mas como enunciados que produzem sentidos sobre o lugar da música na Educação Básica. Os achados indicam que a inserção da música no currículo escolar está atravessada por tensões entre prescrição e criação. Em meio a dispositivos regulatórios, emergem também brechas para a invenção pedagógica, nas quais professores atuam como tradutores ético-políticos do currículo, reinscrevendo sentidos a partir de suas escutas, histórias e práticas. A música, nesse contexto, não é mero conteúdo, mas linguagem de pertencimento e prática de reexistência. Conclui-se que ensinar música é habitar o entre — traduzir, escutar, criar — e que o currículo se constitui como travessia política e afetiva, sempre em disputa e movimento.
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